sábado, 15 de junho de 2013

Bo(b)azinha?!







Há dois anos, durante uma aula, após interferir em mais um conflito entre alunos – valendo-me do tríplice antídoto: tolerância, diálogo e bom-humor –, uma estudante do 6º ano dirigiu-se a mim:

– Ô, pró, a senhora é tão  boazinha!

– Não, não sou ‘boazinha’! Mas, entendo que todos nós devemos seguir o propósito de sermos cada vez melhores! – objetei.

Aliás, confesso ter ojeriza à conotação dada a essa expressão. No vocabulário escolar, a/o professor/a bonzinho/boazinha sugere aquela pessoa que concentra a híbrida composição de lerda e boba, ou mesmo coitada! Nesses termos, desobrigo-me de ser boazinha!

Persigo, diuturnamente, o ideal de ser uma pessoa que congregue, entre diversos atributos, a bondade. Não que já seja uma boa pessoa, simplesmente recuso-me a continuar sendo má!

sábado, 1 de junho de 2013

Pés felizes





Quem me conhece, sabe como tenho hiante afeição por crianças. Acredito que seja por isso que amo animações; A era do gelo e Happy Feet são minhas queridinhas. Muitas crianças que assinalaram presença em minha vida – graças à minha escolha profissional – protagonizaram cenas dignas de um Blockbuster. Nunca me esquecerei de Wendley, um garotinho de cabelos arrepiados de quem fui professora na alfabetização. Era 1994. O cenário foi uma festa escolar em que se serviu um almoço. Por conta de uma série de contratempos, cheguei no momento em que as crianças já estavam fazendo a refeição. Quando Wendley me avistou, largou o seu prato e, em passos céleres, foi ao meu encontro. E eu, o que fiz? Ao visualizar suas mãos sujas da mistura farinha-com-feijão, estraguei sua comemoração que culminaria com um abraço – o qual foi dado, mas sob constrangimento – e com a afirmação "pensei que você não vinha, pró". Ao interrogá-lo sobre o estado (limpeza) das suas mãos, fui surpreendida com sua defesa: “Eu fiz assim, ó!", mostrando que virou suas mãozinhas para não me sujar! Como fui leviana! Hoje, já com um olhar menos intoxicado, penso que agiria de outra forma; talvez articulasse, em pensamento: “Que importa uma sujeirinha, que é lavável, diante de um gesto que limpa qualquer nódoa de desamor?”.

Quero, também, trazer à cena Victória, uma loirinha esperta que vivia pulando, cantando e dançando. Certa vez, retornou – correndo, obviamente – do recreio, só parando próximo a mim, como se freasse, para me fazer um afago cheio de generosidade. Segurando uma das minhas bochechas, veio-me com esta declaração inusitada: "Coisa fofa com essas pintinhas lindas no rosto!”. As pintinhas eram as marcas de espinhas, herança da minha adolescência. Acho que foi o eufemismo infantil mais criativo de que tive ciência!

Mano é o pinguim protagonista da animação Happy Feet (pés felizes). Como não tinha uma voz afinada, foi discriminado pela sua comunidade. Apostou, então, na habilidade (ou melhor, na felicidade) dos pés para tornar-se aceitável, embora, inicialmente, em vão.  

Rick, um ex-aluno muito comunicativo, também possui pés felizes. A despeito de uma deficiência que o força a andar trôpego e a exibir pernas mirradas (além de, volta e meia, ouvir gracejos maldosos de alguns colegas; escorrega no quiabo é um desses chistes), Rick demonstra ser uma criança muito feliz: corre, pula, brinca e participa fervorosamente das atividades propostas  na escola. Na época em que lecionei em sua turma, voluntariou-se para ser um dos sacis que representariam sua equipe na gincana do folclore. Nunca vi um Saci-Pererê tão bem-disposto! Ao final da sua apresentação, perguntou-me como tinha se saído, queria minha avaliação. Em seguida, exibiu-se: “Acho que minha equipe vai ganhar, porque me esforcei muito!" Assim aconteceu, a equipe dos pés mais felizes que conheço foi a vencedora daquela competição! Aqueles que me leem assiduamente devem lembrar que Mano e Rick já figuraram em outra produção minha. Neste momento, recorro a tais personagens porque ambos levantam uma pauta de questões humanas que englobam o viver em comunidade, sendo uma delas: o anseio comum de pertencimento.

Mano, o pinguim, quis fazer parte do seu grupo e contribuir com os movimentos alegres dos seus pés. Rick, o menino das pernas emurchecidas, não teve qualquer embaraço ao participar de uma atividade em que os membros inferiores seriam ferramentas essenciais; sem hesitação, ele autodesafiou-se e evidenciou que as deficiências não devem suplantar a disposição para [a]ventura. Wendley e Victória aceleraram passos para demonstrar júbilo com grande afã.
Conjecturo, portanto, que o conceito de felicidade, para os infantes, tem a ver com correria.
Assim, arremato, certa de que as três crianças aqui mencionadas – representando todas as outras – têm em comum a linda vocação de irem ao encontro do que amam, do que lhes faz bem. Correndo. Felizes.
Professora Rosana Souza