domingo, 28 de abril de 2013

Das redes ( e anzóis) sociais!

Pus-me a pensar sobre como as redes sociais digitais têm agenciado novas formas ortográficas. Para exemplificar, selecionemos um dos posts virais, que mescla interferências da oralidade, humor em superdose e distância do Aurélio. Fico intrigada com o xatiado, muitas vezes acompanhado da imagem de um pet ou mesmo de uma criança super fofa; para os que adquiriram uma boa medida de letramento, pode representar acréscimo ou variação. Todavia, pensando nos lusófonos mirins, ou mesmo naqueles que circulam nas vias do analfabetismo funcional, isso é estagnação – para não classificar como regressão!
Parece que não só os vírus dos crackers, mas também uma virose linguística perambula nas infovias, acessando livremente espaços comunicativos em que se deveriam aprimorar a proficiência no nosso vernáculo – ou mesmo no inglês, língua franca da internet. Tudo bem , humor sempre é bem-vindo (dou gargalhadas com #asminapira, #todasama etc.); utilizar a língua materna e suas redes (variações), em seus 'quadrados'( considerando seu caráter situacional), seria até animador! Entretanto, urge que se avise aos navegantes para não se prenderem em anzóis malvados – concerteza, porisso, derrepente e cia. são dos mais letais!
 
                                                                                                                        Professora Rosana Souza

quarta-feira, 24 de abril de 2013

É homem ou mulher?

Deparei-me com uma ansiedade incontida ao saber que iria lecionar língua inglesa numa escola de ensino médio. Comecei. Esforcei-me para aplicar os conhecimentos obtidos nos cursos que havia feito. Minhas primeiras exposições foram barradas por algumas frases dos alunos:
– Peraê, teacher, a gente não sabe nem o português...
– Fessora, como é que se diz “burro” em inglês pra eu chamar aquele menino...
– Prof, em inglês, eu só aprendi “the book is on the table”...
Curioso mesmo foi observar o diálogo entre duas alunas que tentavam responder uma atividade escrita proposta numa das minhas aulas:
Home é homem–disse uma.
–Não! Home é mulher!– retrucou a outra.
Após exaustiva discussão, uma delas dirigiu-se a mim e perguntou:
–Afinal, professora, home é homem ou mulher?
As experiências eram(e continuam sendo!) das comuns às mais insólitas, muitos alunos faziam perguntas sobre a tradução de nomes de marcas famosas, frases de cadernos, letras de músicas, mensagens de celular, “como é meu nome em inglês?”. Um estudante foi apelidado de TOBÉ por seus colegas. O fato que originou essa alcunha ocorreu na aula de outra professora , a qual, após transcrever no quadro o nome do verbo a ser estudado, obteve a nova pronúncia do famoso to be. E mais: alguns alunos amam fazer adaptações à língua inglesa. Certa vez, antes de apagar o quadro, perguntei :
–Copiaram?
–Copiation[leia-se : copiêixan] – respondeu a divertida Karine.
Oh, my God!
                                                                                                           Professora Rosana Souza

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Acerca de viagens e transeuntes



Gosto da imagem transmitida pelas palavras transeuntes e viagens porque sou apaixonada pela ideia de Pessoa, que igualou a viagem aos viajantes: A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos. A escola, a família, a sociedade, a vida são seus membros. Destarte, não há caminhos ou mapas a se seguirem, há viandantes a serem aprimorados.
Muitas foram as situações de embaraço em que questionei a minha opção pelo magistério. Às vezes, perguntava para mim mesma: ”O que é que eu estou fazendo aqui?” Todavia, não foram raras as vezes em que concluí, confessando secretamente:”Ah, eu deveria era estar aqui mesmo!”( Não existiria lugar melhor para eu estar) Se eu não estivesse neste lugar como veria Marianna soletrando as suas primeiras sílabas gráficas? Abalizando as letras com seus dedos, ela dizia:  com i, mi;  com i, mi - Mimi, pronto, Mimi (olhava para mim, seus olhos rindo). Eu quase não acreditava que tinha parcela naquele evento.
O ambiente da sala de aula, fisicamente limitado, proporciona vivências inusitadas, aprendizagens ilimitadas; o belo e o mágico também frequentam a escola. Numa manhã de sexta-feira, por exemplo, não se espera que um aluno, no meio de uma atividade avaliativa chame a sua atenção dizendo: Pró, ó o pisca-pisca!O pisca-pisca era humano (seus olhos abrindo e fechando).
Uma das alocuções do protagonista do filme O jardineiro fiel, Justin Quayle, ajudou-me a refletir sobre o conceito de lugar. Justin afirmou que seu lugar, sua casa, era Tessa, sua esposa. Do mesmo modo, acredito que a escola - não o prédio, mas os seus transeuntes, as vivências nela proporcionadas - seja o meu lugar – digo, a minha viagem.

                                                         Texto: Professora Rosana Souza
                                    


Apresentação – a escrita é o meu divã

Caro visitante, Apresento-lhe meu divã. Explico-me: sou professora da educação básica há duas décadas. Trago na memória, e no coração, algumas histórias vivenciadas em sala de aula, as quais imprimem ao meu ser catarse e inquietação. Sei o quanto as narrativas fascinam as pessoas de sensibilidade e bom senso, as quais  se permitem aprender um pouco mais! Proponho-me a ser, figuradamente, sua Sherazade, embora não possua tanta destreza com a narração. A proposta é apresentar, periodicamente, uma crônica extraída do meu portfólio. Aceita uma história? Acomode-se no divã!