segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Amainando conflitos

       Conflitos são lugares-comum no cotidiano da escola, são inerentes à sua dinâmica. Logo, ser educador é também ser pacificador; por vezes advogado,ou mesmo juiz. Na minha jornada, coleciono experiências de finais felizes ante a pequenos conflitos. Pensei até em criar um manual cujo título seria “Receitas infalíveis de mediar conflitos em sala de aula”.

Apartando briga: Ao sair de uma sala , deparei-me com dois alunos que se atracavam, trocando tapas e murros. Pedi, em voz alta, que parassem. Nada. Nervosa, ordenei que parassem. Nenhum sucesso. “Ah, então vocês estão gostando de se agarrar?!”, foi a minha cartada final. Pareceu mágico o efeito das minhas palavras. Os beligerantes interromperam imediatamente o combate.

Adequando o vocabulário: Na moral é uma gíria encontrada no vocabulário de muitos adolescentes com os quais trabalho; sua significação deve ser próxima à “numa boa”; trata-se da roupagem teen de  “por favor”.Numa dada situação de confronto em que um aluno importunava sua colega, dirigi-me a ele:–Na moral, Fernando, pare de perturbar sua colega!Ele a deixou em paz e justificou:– Aê, prof, só vou obedecer porque a senhora usou as palavras certas.

Guardando segredo: A professora de Geografia passava pelo corredor que dava acesso a sala onde teria sua próxima aula. Sandro a seguia, imitando-a em seu andar. Ao perceber que eu o flagrava, imediatamente veio ao meu encontro, já dizendo:

–Ô, pró, PELOAMORDEDEUS, não conta nada pra ela.

–Meu Deus, mais uma bomba para eu desativar – pensei rapidamente.

De súbito, respondi:

–Está bem, está bem, mas vê se não apronta mais!Mais tarde, ao realizar a chamada nominal em sua classe, Sandro olhou para mim e, sorrindo, disse:–Eu e a pró temos um segredo, né, pró? 

        Além dessas, há inúmeras experiências sobre as quais ainda tenho dúvidas se agi conforme a ética da minha profissão. Só estou certa mesmo é de que muitas delas são  hilariantes e inesquecíveis.Na verdade, até o presente momento, ignoro onde está o limite entre o pedagógico/didático/ético e o feedback imediato que as relações vivenciadas na escola requerem de nós, mediadores do conhecimento. Apenas julgo que, para nos manter na luta, em nome da paz na escola – e na vida – as poucas armas de que dispomos são o diálogo, a afetividade, os acordos de convivência e —  muitas vezes — a criatividade.

Rosana Souza

 

 

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Won'o, o flagra!



Proposição: A pesca emburrece, induz ao erro mais facilmente, subestima e aplaca a autonomia do sujeito no seu processo de construção da aprendizagem.

Vivenciar uma semana de provas é, talvez, uma das experiências mais desgastantes do cotidiano escolar. Parece que nós, professores, nos submetemos a uma brincadeira de 'gato e rato' ou mesmo de Sherlock Holmes, a fim de garantir o êxito do processo. A cola — ou pesca, como é conhecida em minha região — é uma ameaça iminente para o professor. Para alguns estudantes, uma prática frequente e, até, um ato salvador!

Keep calm, o estresse ainda não acabou! E quando chega o dia de apresentar o resultado das avaliações? Aí é outra história! Percebo que ganhei antipatizantes, uma vez que sempre procurei usar um padrão de equidade, no tocante a aferição da aprendizagem da minha matéria! Lembro-me de uma frase que dizia " Professor  e aluno são amigos para sempre até que a nota os separa".

Em minha carreira ( ou seria correria?), já experimentei de um-quase-tudo e, quando parecia que já tinha vivido toda a minha cota de surpresas, neste ano, algo surreal aconteceu! Vamos aos fatos.

Ao corrigir a atividade de uma turma de ensino médio, observei a recorrência de um erro curioso: onde deveria aparecer won't ( contração de will + not), um estranho won'o prevalecia nas respostas apresentadas. Acionei meu detector de pescas. Não demorou para que eu delineasse o percurso do won'o . Lembrei imediatamente de uma aluna considerada " fera" em Inglês cuja grafia tem formas bem arredondadas. Daí, conjecturei: ao escrever won't, o traçado do seu 't' deu a impressão de ser 'o'; por isso, o primeiro a colar, escreveu won'o. Confirmei esta tese quando verifiquei a resposta original da referida aluna. Ponto pra mim!

Situação semelhante foi observada na turma A, quando notei que um grupo de 7 ou 8 alunos erraram as mesmas questões em um teste de múltipla escolha. Teria sido coincidência, caso o best student não tivesse os mesmos erros.
Antes de advertir às turmas dos alunos infratores, fiz uma preleção sobre o assunto, explicando a linha de raciocínio optada para confirmar minhas deduções  e enfatizando o quanto é perigoso cultivar a prática da pesca/cola. Quando pensava ter instaurado uma esfera de seriedade e reflexão, um aluno saiu com esta tirada: " Professora, a senhora deveria trabalhar no CSI!"

É, caro leitor, ser educador é estar sujeito a coisas desse tipo. Mas, sabe de uma coisa? Aprendo e autoavalio-me constantemente, e, claro, divirto-me muito com tudo isso!



                                                                                                                      Professora Rosana Souza

sábado, 31 de maio de 2014

FAST LESSON



Perguntei se queriam que eu publicasse as médias da unidade ou as mantivesse em sigilo. Foi então que lembrei — e contei— uma breve história que o Sr. Benjamin narrou para mim, há algum tempo, falando de um delegado que não sabia o que significava a palavra sigilo. Notei que muitos alunos gostaram da historieta. Um aluno acenou e disse: professora, eu curti. Outro complementou: e eu compartilho!


quinta-feira, 1 de maio de 2014

Mais que buá, além de blá blá blá



Tia:
—Comeu o chocolate, Isaac?
Isaac:
Comei.
(...)

Ao percorrer  uma loja de departamentos, encontro uma criança ziguezagueando entre corredores de cabides, parecendo desviar-se de mim, a qual diz:
—Pare de me sigue!

Nesses casos, seria realmente necessário o uso do "(SIC)"?!
Luft, em seu livro Língua e liberdade, nos informa que os aparentes erros linguísticos observados nas expressões infantis são, na verdade, hipóteses sendo testadas.
Ah, essas crianças e suas conjugações igualmente maravilhosas !
                                                                                                                                         (RoSmile)

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Algumas Crianças da ficção e uma criança real


Desenho de Rick
Crianças são seres encantadores! Minha mente é povoada por cenas e imagens marcantes de crianças – reais e fictícias    que redesenharam a geografia do meu ser, reconfigurando o meu 'sentir o mundo'. Eis alguns  exemplos do meu portfólio:

Hassan, da obra 'O caçador de pipas',  de Khaled Hosseini, transmitiu-me, de modo singular,  a fragilidade inerente àqueles de idade pueril, gerando luto em mim ( em seu contexto histórico-social, havia muitas crianças, mas pouca infância).

Nullah, do filme Austrália, levou- me a irrigar com lágrimas o meu sofá. Todavia, sua argúcia trouxe-me um reconforto, arrematando de mim até risos!

Lúcia, que imprime gracilidade à adaptação cinematográfica da série de Lewis – As Crônicas de Nárnia – , parece ratificar quão justa a herança de alvará do Reino dos Céus dada às crianças. Sua afeição a Aslam é estonteante! O coração infantil não se engana; reconhece, instintivamente, a perfeição.

Ah! E quanto ao protagonista infantil do longa 'Quem quer ser um milionário'? Encantamento! Este  foi o meu estado  ao visualizar a atuação de Ayush Mahesh Khedekar. Neste filme, Jamal Malik – criança –  parecia pertencer a outra esfera de vida. Aliás, penso que as crianças fazem parte de uma dimensão inescrutável ou, talvez, (fale-se baixinho!) de  uma Ordem Secreta Divina!

Da animação, destaco Mano, o infante pinguim, de Happy  Feet( pés felizes), cuja saga nos alerta para o fato de como devemos ser mais sensíveis à diversidade de expressão demonstrada desde a infância. Filme lindo, um espetáculo em que música e sentimento decantaram minha alma!

A história de Happy Feet  induz-me a Rick, um ex-aluno, portador de uma deficiência  – pernas mirradas – condição  que não o impedia de correr, a todo momento, nas vias da escola em que nos conhecemos e tecemos diálogos interessantes. Um desses, quero registrar. Temo esquecer uma experiência que me fortaleceu enquanto me fragilizava.

— Como você age com os colegas que fazem brincadeiras – bullying, na verdade – com relação a sua deficiência? — perguntei, tentando sublimar meu pesar.

— Ah, eu não me importo muito, mas no fundo fico triste. — disse, com olhar distante.

Encorajei-o, enaltecendo suas qualidades e mudei de assunto.

Rick não deixava, nenhum dia sequer, de me cumprimentar ou me ofertar um gesto de carinho (ai daquele que se candidatasse a ajudar a carregar o meu material!). Havia momentos em que duvidava sobre qual de nós cuidava de quem.

Penso que há um mistério – cujo descerramento aguardo com ânsia desmedida – em torno destes entes sagrados. As crianças aqui apresentadas – dentre muitas outras – ajudaram-me  a ajuizar que  se há alguma coisa para  a qual nasci, seja por vocação ou invocação,  foi para isso: contemplar  o coração infantil; de tal modo, sinto- me mais próxima do céu!

 

Professora  Rosana  Souza

sábado, 6 de julho de 2013

O ano em que quase abandonei o magistério




Que ano o de 2001! Até o seu segundo bimestre, classificava-o como o  pior em toda a minha vida profissional. Bem que me acautelaram: magistério não é profissão, é sacerdócio! E mais: o nome não é professor, mas sofressor!

Sabe aquela sensação de que tudo parece conspirar contra você? Foi essa a que se instaurou em mim naquele ano.

As classes em que lecionava me deixavam sem esperança. Era um 6º ano barulhento, um 7º ano  indisciplinado, diversas turmas de ensino médio indiferentes a toda e qualquer intervenção pedagógica. Rara era a recíproca nos cumprimentos diários: bom dia, boa tarde. Geralmente, a resposta vinha em forma de silêncio ou balbúrdia.

O desgosto era extensivo. Transitava até por entre as tarefas e provas que tinha de levar para casa.

Recordo o dia em que montei uma atividade lúdica para uma das turmas. Uma vez que a escola estava sem papel, arquei com o ônus a fim de romper com o ciclo do desinteresse da classe. Após a atividade, um dos alunos rasgou o papel diante dos colegas, expressando insatisfação com a tarefa proposta. Ao saber que o custo do papel fora meu, retrucou: “amanhã eu trago o seu papel”.

Confesso que a certa altura, eu queria deixar tudo: uma década de magistério, a reputação profissional, a empatia com os alunos. A palavra educação e todas as outras que pertenciam ao seu campo semântico me causavam repulsa. Comecei a procurar concursos para outras carreiras. Estava desiludida com a escola.

Não foram raras as vezes em que chorei o meu fado. Senti vergonha de ser professora.

Alguns dos alunos notaram  minha desdita. Respondia que não era nada.

Entretanto, foi na primavera daquele ano que pude observar que a contrapartida era realidade. Depois de receber uma carta de Jumary, volvi meu olhar aos bilhetinhos com versos que recebia desde o início do ano. Passei a me alimentar das inúmeras declarações de amor devoto que recebia no percurso da escola. Deixei que as palavras de Juliane, uma aluna assaz carismática, ressoassem mais forte ao meu ouvido: Professora, como eu te amo; Como está linda hoje; Estava com saudade, minha pró.

Como fui tola em deixar que a algazarra do ambiente escolar camuflasse o carinho que muitos conseguiam demonstrar! Quanto fui indiferente à devoção de Luna, que me abarrotava de frases de admiração irrestrita. Quão censurável fui ao reclamar da insensibilidade de alguns, se grande era a número de alunos concorrendo entre si para me saudar com um beijo, um abraço, um sorriso. Antes de me dirigir à sala do 6º ano, alguns alunos amontoavam-se diante de mim para carregar meus livros, o estojo, o squeeze e, muitas vezes, para não haver zanga, até mesmo minha bolsa entrava na distribuição. Em um desses momentos de concorrência para carregar meu material, ouvi uma aluna do 7º ano dizer: Esses meninos do 6º ano só faltam carregar a roupa da professora!

Corações desenhados no ar e beijos eram lançados para mim.

Assim, resolvi ficar. Aprendi que era uma questão de redirecionamento do olhar.
 
 
                                                                                               Professora Rosana Souza

 

sábado, 15 de junho de 2013

Bo(b)azinha?!







Há dois anos, durante uma aula, após interferir em mais um conflito entre alunos – valendo-me do tríplice antídoto: tolerância, diálogo e bom-humor –, uma estudante do 6º ano dirigiu-se a mim:

– Ô, pró, a senhora é tão  boazinha!

– Não, não sou ‘boazinha’! Mas, entendo que todos nós devemos seguir o propósito de sermos cada vez melhores! – objetei.

Aliás, confesso ter ojeriza à conotação dada a essa expressão. No vocabulário escolar, a/o professor/a bonzinho/boazinha sugere aquela pessoa que concentra a híbrida composição de lerda e boba, ou mesmo coitada! Nesses termos, desobrigo-me de ser boazinha!

Persigo, diuturnamente, o ideal de ser uma pessoa que congregue, entre diversos atributos, a bondade. Não que já seja uma boa pessoa, simplesmente recuso-me a continuar sendo má!